CADERNOSENSAIO · 21 de agosto de 2026
O princípio da abundância
Aquilo em que acreditamos também participa da realidade que construímos
POR FERNANDA PENTEADO

Hoje, com a Lua em Sagitário, tenho pensado nos horizontes que conseguimos enxergar — e naqueles que permanecem invisíveis porque alguma parte de nós aprendeu que não poderia alcançá-los.
Sagitário nos convida a ampliar a perspectiva, questionar verdades antigas e procurar um sentido maior para aquilo que estamos vivendo.
Durante a temporada de eclipses, esse movimento pode se tornar ainda mais intenso.
Simbolicamente, os véus da realidade ficam mais finos. Aquilo que permanecia oculto começa a se revelar. Padrões, insatisfações e crenças que antes pareciam naturais tornam-se mais difíceis de ignorar.
Podemos ter saltos de consciência: momentos em que compreendemos, de uma só vez, algo que vinha sendo elaborado silenciosamente há muito tempo.
A realidade externa talvez ainda pareça a mesma. Mas, internamente, já não conseguimos observá-la do mesmo lugar.
E quando a consciência muda, a realidade que conseguimos construir também começa a mudar.
Nós criamos nossa realidade?
Existe uma afirmação recorrente nos estudos sobre espiritualidade: criamos nossa própria realidade.
Essa ideia pode nos devolver potência, mas precisa ser compreendida com responsabilidade.
Não criamos tudo o que nos acontece.
Existem condições sociais, econômicas, familiares e históricas que não dependem apenas da vontade individual. Existem perdas, limites, injustiças e acontecimentos que não escolhemos.
Afirmar que uma pessoa produziu integralmente todas as dificuldades que enfrenta pode transformar sofrimento em culpa e desigualdade em suposta falta de consciência.
Mas reconhecer esses limites não significa concluir que somos figuras passivas diante da vida.
Talvez não possamos escolher tudo o que nos acontece, mas participamos da realidade que construímos por meio daquilo que percebemos, interpretamos, aceitamos e acreditamos ser possível.
Participamos quando fazemos escolhas.
Quando estabelecemos ou deixamos de estabelecer limites.
Quando reconhecemos uma oportunidade ou sequer conseguimos enxergá-la.
Quando repetimos uma resposta conhecida ou reunimos coragem para experimentar um movimento diferente.
É nesse espaço de participação que encontramos nossa potência.
As crenças que organizam nossa experiência
Uma crença não é somente uma ideia que repetimos conscientemente.
Muitas crenças são conclusões emocionais formadas a partir de experiências vividas. Elas podem nascer da maneira como vimos nossa família lidar com dinheiro, da instabilidade que atravessamos, das relações em que precisamos diminuir nossos desejos ou das vezes em que receber algo veio acompanhado de culpa, cobrança ou ameaça.
Uma criança que presencia constantes dificuldades financeiras pode concluir que o dinheiro nunca permanece.
Uma mulher que aprendeu a ser amada por tudo o que oferece pode acreditar que receber sem se sacrificar é egoísmo.
Alguém que viu o desejo ser tratado como ambição excessiva pode aprender que querer mais é uma forma de ingratidão.
Uma pessoa que precisou lutar por tudo pode desconfiar daquilo que chega com facilidade.
Essas conclusões nem sempre aparecem como pensamentos claros. Elas se manifestam em escolhas, reações e repetições aparentemente automáticas.
Podemos desejar prosperidade conscientemente e, ao mesmo tempo, desconfiar das oportunidades que poderiam aproximá-la.
Podemos afirmar que queremos receber mais e continuar cobrando menos do que nosso trabalho exige.
Podemos desejar uma vida diferente, mas permanecer vinculados à ideia de que crescer significaria abandonar nossa origem, ultrapassar alguém que amamos ou nos tornar uma pessoa que não reconhecemos.
Quando uma crença permanece inconsciente, ela não parece uma crença.
Parece realidade.
Toda crença oferece um ganho e uma proteção
Nenhuma crença permanece em nossa vida sem exercer uma função.
Mesmo a crença mais limitante está fundamentada em dois movimentos: ganhar alguma coisa e proteger-se de alguma coisa.
A crença de que “não posso confiar em ninguém” pode oferecer uma sensação de controle e proteger da possibilidade de uma nova decepção.
A crença de que “preciso fazer tudo sozinha” pode preservar uma imagem de força e evitar a vulnerabilidade de precisar de alguém.
A crença de que “dinheiro nunca permanece comigo” pode proteger da responsabilidade, da exposição ou dos conflitos que imaginamos acompanhar a prosperidade.
A crença de que “não posso desejar mais” pode preservar o pertencimento à família e proteger da culpa de construir uma vida diferente daquela que as pessoas que amamos conseguiram viver.
Uma crença limitante não nasce para nos destruir.
Em algum momento, ela foi a melhor resposta que conseguimos construir diante daquilo que estávamos vivendo.
Talvez tenha oferecido pertencimento, previsibilidade, controle, reconhecimento ou segurança.
Talvez tenha nos protegido da rejeição, da culpa, do fracasso, da exposição ou da possibilidade de perder algo importante.
O problema começa quando uma estratégia criada para nos proteger passa a limitar os caminhos que podemos seguir.
Investigar é a chave da libertação
Por isso, não basta identificar uma crença como negativa e tentar substituí-la por uma afirmação positiva.
Antes de transformar uma crença, precisamos compreender o acordo inconsciente que estabelecemos com ela.
O que ganho quando continuo acreditando nisso?
Do que essa crença tenta me proteger?
O que eu precisaria enfrentar se deixasse de sustentá-la?
Que identidade, vínculo ou sensação de segurança pareceria ameaçada?
A quem continuo pertencendo quando permaneço fiel a essa história?
Investigar uma crença não significa justificar sua permanência.
Significa reconhecer que ela exerceu uma função e compreender qual necessidade ainda está tentando atender.
Uma estratégia que um dia protegeu também pode, com o tempo, começar a aprisionar.
A libertação acontece quando conseguimos agradecer pela função que aquela crença exerceu sem continuar entregando a ela a direção da nossa vida.
Não precisamos arrancá-la à força.
Precisamos desenvolver recursos mais conscientes para receber aquilo que ela oferecia e nos proteger daquilo que ela temia.
Se a crença oferecia pertencimento, precisamos descobrir formas de crescer sem romper internamente com nossa origem.
Se oferecia controle, precisamos fortalecer nossa capacidade de atravessar o desconhecido.
Se protegia da rejeição, precisamos construir um valor interno que não dependa exclusivamente da aprovação externa.
Se evitava responsabilidades, precisamos desenvolver recursos para sustentar aquilo que desejamos receber.
Quando compreendemos o ganho e a proteção existentes por trás de uma crença, tornamo-nos capazes de atender à mesma necessidade de outra maneira.
É a investigação que transforma uma sentença inconsciente em uma escolha.
E aquilo que pode ser escolhido já não precisa continuar sendo destino.
Transformar não é apenas pensar diferente
Uma crença não se transforma somente porque repetimos o seu contrário.
Dizer “sou próspera” pode ter pouco efeito quando nosso corpo, nossas escolhas e nossa realidade continuam organizados pela expectativa da falta.
As novas crenças precisam encontrar experiências que possam sustentá-las.
A crença “não sei administrar dinheiro” começa a mudar quando olhamos para os números, organizamos nossos recursos, aprendemos aquilo que ainda não sabemos e reconhecemos as escolhas que já conseguimos fazer de maneira diferente.
A crença “não mereço receber” pode ser questionada quando aceitamos ajuda sem tentar compensá-la imediatamente, quando cobramos de maneira justa ou permitimos que nosso trabalho seja reconhecido.
A crença “nunca existe o suficiente” começa a se transformar quando deixamos de olhar apenas para o que falta e desenvolvemos a capacidade de perceber, administrar e utilizar aquilo que já está disponível.
Uma crença mais alinhada não é uma frase bonita usada para negar a realidade.
É uma compreensão capaz de produzir escolhas diferentes.
Transformar uma crença exige pensamento, mas também experiência.
Exige uma nova escolha.
Depois outra.
E outra.
Até que uma realidade diferente deixe de parecer impossível.
O princípio da abundância
Abundância não significa possuir tudo ou ter todos os desejos atendidos.
Também não significa negar perdas, limites ou períodos reais de escassez.
Na natureza, a abundância não se manifesta como crescimento permanente. Existem épocas de florescimento, colheita, recolhimento, morte e renovação.
Nada cresce continuamente sem pausa, limite ou transformação.
O princípio da abundância está relacionado ao movimento e à circulação da vida.
Receber e oferecer.
Criar e preservar.
Plantar e colher.
Expandir e reconhecer o momento de recolher.
A abundância não está apenas na quantidade daquilo que possuímos, mas em nossa capacidade de reconhecer os recursos existentes, permitir que circulem e utilizá-los com consciência.
Sob essa perspectiva, prosperidade não é simplesmente acumular mais.
É desenvolver a capacidade de gerar, receber, administrar e preservar recursos.
É reconhecer valor sem transformar valor em superioridade.
É permitir que algo cresça sem exigir que esse crescimento aconteça à custa do próprio corpo, dos vínculos ou da integridade.
É compreender que receber e oferecer fazem parte de um mesmo fluxo — e que interrompemos esse fluxo tanto quando não conseguimos receber quanto quando nos esvaziamos continuamente para oferecer.
Sempre temos aquilo que precisamos para dar o próximo passo
Talvez um dos princípios mais profundos da abundância seja este:
Sempre temos aquilo que precisamos para dar o próximo passo.
Isso não significa que possuímos, agora, todos os recursos necessários para realizar a travessia inteira.
Também não significa que todas as pessoas partam das mesmas condições ou encontrem as mesmas possibilidades.
Significa que o caminho raramente se revela por completo.
Às vezes, aquilo que temos é uma oportunidade.
Em outras, é uma informação, uma conversa, uma habilidade ainda pouco reconhecida, um limite que finalmente conseguimos estabelecer ou a consciência de que já não podemos continuar da mesma forma.
Há momentos em que o próximo passo é agir.
Em outros, é pedir ajuda.
Pode ser aprender, reorganizar, esperar, encerrar, oferecer, receber ou simplesmente admitir o que sentimos.
A abundância também é a capacidade de perceber e utilizar aquilo que já está ao nosso alcance.
Quando olhamos apenas para tudo o que ainda falta, podemos deixar de reconhecer o recurso que permitiria o próximo movimento.
Não precisamos conhecer o caminho inteiro para começar.
Precisamos reconhecer o próximo passo possível — e encontrar coragem para realizá-lo.
Quando os véus ficam mais finos
Durante a temporada de eclipses, os véus da realidade ficam mais finos.
Não necessariamente porque o mundo exterior se modifica de uma hora para outra, mas porque algo em nossa percepção se abre.
Podemos enxergar a função de um padrão que antes apenas repetíamos.
Compreender a crença que sustentava uma escolha.
Reconhecer o medo escondido por trás de uma justificativa.
Perceber que aquilo que chamávamos de destino talvez fosse uma forma antiga de proteção.
Esses saltos de consciência não concluem a transformação, mas inauguram uma nova possibilidade.
Depois que algo se torna consciente, talvez ainda precisemos de tempo, recursos e coragem para agir. Mas já não conseguimos retornar completamente à inconsciência anterior.
A realidade pode permanecer igual por algum tempo.
Nós, porém, já não somos exatamente os mesmos diante dela.
Quando outra realidade se torna possível
Criar uma nova realidade não significa controlar todos os acontecimentos.
Significa ampliar nossa capacidade de responder ao que acontece.
Significa perceber possibilidades que antes eram descartadas, construir recursos internos e externos e interromper repetições que pareciam inevitáveis.
Às vezes, a primeira manifestação de uma nova realidade é apenas uma pergunta:
E se não precisar continuar assim?
Essa pergunta não resolve imediatamente as condições concretas da vida. Mas inaugura um espaço interno que antes não existia.
Durante esta temporada de eclipses, talvez algumas crenças estejam se tornando mais visíveis.
Talvez aquilo que chamávamos de destino comece a revelar-se como repetição.
Talvez certas formas de escassez já não consigam ocupar o lugar de identidade.
A Lua em Sagitário nos convida a olhar além da fronteira conhecida. A reconhecer que nenhuma crença individual contém toda a verdade e que a realidade pode ser maior do que aquilo que conseguimos imaginar até aqui.
Não para negar o que existe.
Mas para deixar de acreditar que o que existe agora é tudo o que poderá existir.
Talvez a abundância comece exatamente nesse ponto:
quando honramos a história que nos trouxe até aqui, compreendemos aquilo que nossas crenças tentaram preservar e deixamos de usá-las como medida de tudo o que ainda podemos viver.
Que crença sobre merecimento, dinheiro ou prosperidade você precisa investigar para reconhecer o próximo passo?
FERNANDA PENTEADO
Investigação Simbólica
Se este ensaio tocou algo em você, o caminho pode continuar.
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