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ASTROLOGIA · · 5 MIN DE LEITURA

Mercúrio retrógrado em Escorpião: dar nome ao que age em silêncio

POR FERNANDA PENTEADO

Símbolos de Mercúrio e Escorpião gravados em vidro escuro, iluminados por uma luz suave em tons prateados, azuis e vinho.

Há pensamentos que repetimos há tanto tempo que já não os reconhecemos como pensamentos. Parecem fatos: “não tenho capacidade”, “ainda não estou pronta”, “isso sempre dá errado para mim”. Aos poucos, essas frases passam a orientar o que tentamos, o que evitamos e até aquilo que conseguimos reconhecer como conquista.

Mercúrio retrógrado em Escorpião oferece uma oportunidade de investigar essas certezas. O convite é reconhecer e nomear o que influencia nossa percepção sem que percebamos: medos, desejos, desconfianças e formas sutis de diminuir nossas possibilidades.

Mercúrio fica retrógrado de 24 de outubro a 13 de novembro, percorrendo o trecho entre 20°59′ e 5°02′ de Escorpião. Considerando as sombras, o processo se estende de 4 de outubro a 30 de novembro. Essas etapas permitem acompanhar uma sequência simbólica de reconhecimento, revisão e elaboração.

A mentalidade que organiza nossas experiências

Mercúrio representa a maneira como pensamos, aprendemos, interpretamos e nos comunicamos. Isso inclui a conversa que mantemos conosco e os significados que atribuímos ao que acontece.

A retrogradação pode ser compreendida como um período de revisão dessas funções. Podemos voltar a uma conclusão, reconsiderar uma conversa e perceber que uma interpretação antiga já não explica suficientemente a experiência presente.

Escorpião acrescenta profundidade a essa investigação. Como signo de água fixa, regido tradicionalmente por Marte, sua simbologia nos leva aos conteúdos emocionalmente carregados, às defesas e àquilo que temos dificuldade de admitir.

Uma pergunta atravessa esse trânsito: o que existe por trás da maneira como penso e falo sobre mim?

Por trás de “não preciso disso”, pode haver um desejo que temos medo de reconhecer. Por trás de “preciso me preparar melhor”, pode existir uma necessidade concreta de estudo, mas também o receio de ser vista e avaliada. A investigação exige discernimento: reconhecer a função de cada pensamento, em vez de classificar toda hesitação como autossabotagem.

As formas sutis de nos diminuir

A autossabotagem pode aparecer em pequenos hábitos: desconsiderar um elogio, atribuir uma conquista apenas à sorte, abandonar uma ideia antes de testá-la ou esperar uma segurança absoluta para começar.

Muitas dessas atitudes podem funcionar como proteção. Evitar uma tentativa reduz a exposição à rejeição. Diminuir a importância de um desejo pode amenizar a possibilidade de frustração. Exigir perfeição pode adiar o encontro com a própria vulnerabilidade.

O problema surge quando essas proteções passam a restringir continuamente nossas escolhas.

Reconhecê-las pede cuidado. Transformar “eu me saboto” em mais uma acusação apenas alimentaria o diálogo interno que estamos tentando compreender. A pergunta mais fértil é: do que estou tentando me proteger e qual tem sido o custo dessa proteção?

As evidências que escolhemos enxergar

O viés de confirmação ajuda a compreender como certas crenças se mantêm. Quando acreditamos que somos incapazes, podemos dar um peso enorme a um erro e quase nenhum aos sinais de competência.

Uma dificuldade se transforma em confirmação: “eu sabia que não conseguiria”. Um resultado positivo recebe uma explicação que preserva a crença anterior: “foi sorte”, “era fácil”, “qualquer pessoa faria”.

Nesse processo, a interpretação ganha aparência de prova.

Nossas expectativas também podem influenciar nossas atitudes. Se antecipamos rejeição, talvez deixemos de fazer uma proposta ou expressemos uma necessidade de maneira defensiva. Isso pode contribuir para um resultado difícil, embora crenças não determinem acontecimentos nem eliminem a importância das circunstâncias externas.

Uma confiança maior pode ampliar a disposição para tentar, aprender e persistir. Ela também precisa permanecer aberta aos fatos.

O trabalho deste ciclo pode ser formulado assim: examinar tanto as conclusões que nos diminuem quanto a maneira como selecionamos as evidências que as sustentam.

Os aspectos que aprofundam a investigação

O ingresso de Mercúrio em Escorpião traz um contexto de tensão: em 2 de outubro, antes da sombra, ele forma quadraturas com Marte em Leão e Plutão em Aquário. Em 6 de outubro, encontra Vênus retrógrada, a 8°13′ de Escorpião. Durante a retrogradação, volta a formar quadratura com Marte em 30 de outubro, a 17°59′ dos respectivos signos. Em 4 de novembro, encontra o Sol, a 12°11′ de Escorpião.

A quadratura com Marte merece atenção especial porque Marte rege o signo ocupado por Mercúrio. Simbolicamente, ela aproxima pensamento e defesa. Uma pergunta pode tocar no orgulho; uma discordância pode ser interpretada como desqualificação. Internamente, a cobrança pode ganhar uma voz agressiva.

Esse contato nos permite investigar como reagimos quando nossa capacidade parece estar em julgamento. Conseguimos reconhecer uma dificuldade sem transformá-la numa sentença sobre quem somos?

O encontro com Vênus retrógrada aproxima a investigação dos valores, desejos e vínculos. Podemos perguntar quanto nosso diálogo interno depende de aprovação e o que deixamos de desejar para preservar uma imagem ou uma relação. Também é uma oportunidade de nomear expectativas que nunca chegaram a ser conversadas.

A conjunção inferior com o Sol marca o centro do processo. Podemos lê-la como um momento de reorganização da compreensão: encontrar palavras, perceber uma motivação ou formular melhor uma pergunta. Essa percepção precisará ser elaborada e colocada à prova na experiência.

Dois aspectos menores acrescentam continuidade: o quincúncio com Saturno, em 9 de outubro, 7 e 19 de novembro, e a sesquiquadratura com Netuno, em 16 e 31 de outubro e 27 de novembro, considerando Brasília.

Na nossa leitura, Saturno pede precisão sobre limites e responsabilidades: o que realmente falta aprender ou organizar? Netuno convida a distinguir impressão, receio e evidência: o que sei, o que suponho e o que ainda precisa ser esclarecido?

Reconhecer, nomear e responder de outra maneira

A pré-sombra, iniciada em 4 de outubro, pode ser acompanhada como a apresentação dos assuntos. A estação retrógrada, em 24 de outubro, abre a etapa de reconsideração. A conjunção com o Sol, em 4 de novembro, oferece um marco de percepção. A partir da estação direta, em 13 de novembro, a reflexão pode ganhar expressão em escolhas e conversas, até a saída da sombra, em 30 de novembro.

Transformar a mentalidade envolve construir uma linguagem mais precisa. “Sou incapaz” pode se tornar “ainda não domino esta parte”. “Tudo dá errado” pode dar lugar à identificação de uma dificuldade específica. “Não estou pronta” pode finalmente ser desdobrado: pronta para quê, segundo qual critério, e o que falta concretamente?

Dar nome ao medo ajuda a reconhecer sua presença sem entregar a ele todas as decisões. Dar nome a um desejo permite avaliar como cuidar dele. Dar nome a uma crença abre espaço para investigá-la.

Que pensamentos agem em silêncio nas minhas escolhas e o que muda quando consigo reconhecê-los e nomeá-los?

FERNANDA PENTEADO

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